
“The things you own, they end up owning you.”
Essa citação é do filme Fight Club, excelente para o tema que venho levantando. A Mi escreveu no blog dela sobre suas dúvidas e idéias a respeito do Buy Nothing Day e foi, ao meu ver, muito pertinente. Eu entendo que a proposta não esteja muito clara nos sites disponíveis e que a criação de lojinhas e camisetas do evento é, no mínimo, contraditória, mas são as contradições do capitalismo – ou pelo menos á assim que eu vejo a coisa. A proposta do Buy Nothing Day (idéia do canadense Ted Dave, que começou como uma manifestação local em 1992) é justamente no momento em que as pessoas mais compram e consomem (Thanks Giving na América do Norte e início da temporada natalina), fazer uma pausa para refletirmos sobre o consumo. E como é possível praticar o consumo consciente?
“Advertisements have them chasing cars and clothes, working jobs they hate so they can buy shit they don’t need. We are the middle children of history, with no purpose or place. We have no Great War, or great depression. The great war is a spiritual war. The great depression is our lives. We were raised by television to believe that we’d be millionaires and movie gods and rock stars — but we won’t.”
Outra citação do Fight Club. Nós crescemos ouvindo que precisamos desse chiclete para beijar pessoas bonitas, que precisamos daquele cigarro para ser livres, que só com aquele carro poderemos nos destacar. A propaganda cria necessidades artificiais que elevam nossas expectativas matérias a um patamar praticamente inalcançável. Não seremos milionários nem dirigiremos carrões, mas por aceitarmos esses sonhos como padrão, passamos a vida inteira trabalhando feito loucos para realizá-los. E, se por sorte ou esforço, os realizamos – seremos realizados e plenos? A primeira pergunta para um consumo consciente é: por que eu compro isto? Preciso desse chiclete para melhorar o meu hálito, para prevenir as cáries, para saciar a minha vontade de comer… ou eu preciso dele porque, no fundo, é um beijo que eu desejo? Eu compro roupas para suprir minhas necessidades básicas (e uma ou outra estética já que ninguém é de ferro) ou eu corro pelos shoppings comprando porque preciso disso para me sentir bela e querida?
“Jack: You buy furniture. You tell yourself: this is the last sofa I’ll ever need. No matter what else happens, I’ve got the sofa issue handled. Then, the right set of dishes. The right dinette.
Tyler: This is how we fill up our lives.”
Preencher nosso vazio com produtos é a grande ilusão capitalista. Se você acredita que através do que consome irá se satisfazer passa a viver em função do consumir. Esse é o primeiro e principal ponto do Buy Nothing Day: questionar até que ponto o consumo rege as nossas vidas. Claro que numa economia como a nossa é impossível não consumir, a todo o momento compramos coisas, pagamos coisas, faz parte do nosso modo de vida. É preciso, no entanto, ver além do que se compra. Reduzir nossas necessidades matérias, por exemplo, ameniza (e muito) o impacto sofrido pelo meio ambiente. Estamos nos portando como um câncer no planeta: destruímos, degradamos, desmatamos, desperdiçamos. Quando todos os recursos naturais tiverem se esgotado, o que consumiremos? Dar prioridade a produtos reciclados, por exemplo, é uma atitude bem simples e eficiente. Escolher marcas menores ao invés de comprar das grandes corporações (maiores responsáveis pela exploração da mão de obra dos países menos desenvolvidos) é outra atitude de fácil realização. Reutilizar antes de jogar fora, não comprar aquilo que não é realmente necessário… tudo muito simples, de verdade. A proposta não é alcançar um resultado econômico, como quando boicotamos um produto específico, mas sim chamar atenção para o fato de que é preciso se pensar o consumir. Aqui estão alguns números que merecem (e precisam) ser pensados:
- 20% da população mundial consomem 86% dos recursos do planeta.
- Os japoneses usam 30 milhões de câmeras descartáveis anualmente.
- Os nortes americanos descartam 350 milhões de embalagens de spray aerossol todos os anos.
- Todo ano a Nova Zelândia produz 3.5 milhões de toneladas de lixo, uma média de 2.1 quilos diários por pessoa.
- Os trabalhadores da Nike no Vietnam recebem em média 22 centavos de dólar por hora trabalhada. O total pago pela empresa ao Michael Jordan e ao Tiger Woods no ano de 1996 (mais de 55 milhões de dólares para cada um) era três vezes maior do que a soma dos salários de todos os trabalhadores vietnamitas responsáveis pela fabricação de calçados e roupas.
- Dois terços do comércio mundial estão concentrados nas mãos de apenas 500 empresas, das quais 50 são multinacionais. As dez maiores multinacionais possuem uma renda total maior do que a dos 100 países mais pobres do mundo.
- A ONU estima que custaria cerca de 40 bilhões de dólares para garantir água, educação, moradia e assistência médica básica à toda a população mundial. O mundo gasta quase o dobro desse valor em golfe todos os anos.
Mundo louco esse.
“He who is not contented with what he has, would not be contented with what he would like to have.”
Essa última citação podia muito bem ter saído da boca do Tyler Durden, mas foi o bom e velho Sócrates (o filósofo, não o jogador de futebol) que nos presenteou com ela. Ele bem que sabia das coisas…

